quinta-feira, 28 de maio de 2009

A sustentabilidade e as organizações


O que o RH pode fazer para ajudar a empresa e o negócio quando o assunto é sustentabilidade


Por Toni Mello
(Fonte Você RH)

Discutir e dar vida a ações sustentáveis é algo urgente no mundo contemporâneo. Por isso, conversamos o com professor Reinaldo Bugarelli, coordenador do curso de Sustentabilidade e Responsabilidade Social Empresarial, do Programa de Educação Continuada da Fundação Getulio Vargas. O educador foi indicado ao Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2002, por sua atuação na área da infância e adolescência e recebeu o Prêmio África-Brasil, em 2007, pela realização de ações no campo das relações raciais e diversidade. É autor do livro ''Diversos Somos Todos'', sobre diversidade e responsabilidade social nas organizações.

Muito se fala em sustentabilidade. Mas, afinal, como podemos defini-la?
O conceito está em construção por estar inserido num movimento e, cada vez mais, conta com a participação de indivíduos e organizações que trazem novas perspectivas e desafios para o tema. O conceito que conta com maior consenso é o produzido no chamado Relatório Brundtland ou “Nosso Futuro Comum”. Ele diz algo simples que orienta a forma como devemos tomar decisões individuais ou em nossas organizações visando “O atendimento das necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades".

Quando uma empresa pode ser considerada sustentável?
Não pode. Não existem “empresas sustentáveis”, como se fosse um título ou prêmio. As empresas estão correndo atrás da sustentabilidade o tempo todo e devem gerenciar conjuntamente impactos econômicos, ambientais e sociais para tornar o negócio viável num planeta também viável. O que está em jogo não é o sucesso de uma empresa, mas como o conjunto da humanidade conseguirá repensar o que considera felicidade ou sucesso. Houve época em que responsabilidade social se resumia conceitualmente em filantropia ou investimento social. Quanto mais enxergamos o tamanho do desafio para nossa geração, responsabilidade social passa a significar o conjunto de respostas que oferecemos cotidianamente por meio de tudo que somos e fazemos individualmente e coletivamente.

Porque as organizações devem trazer esse tema para ser debatido internamente?
Porque a vida humana está em jogo. Parece catastrófico e é mesmo. O tema do aquecimento global é o que está mais em evidência, mas há muitas questões afetando nossas vidas e nosso futuro que precisam ser consideradas. Muitas empresas percebem que não discutir questões como corrupção, democracia, voluntariado, reciclagem, consumo consciente, diversidade e discriminação, pode comprometer a qualidade de suas relações e colocar os negócios em risco no presente ou num futuro próximo. Mobilizar os funcionários e toda a rede de relações é fundamental para rever processos, atitudes, formas de se organizar e de planejar a atividade empresarial. São as pessoas que realizam as mudanças e são elas que precisam conhecer esses novos conceitos e aplicar no cotidiano de suas atividades.

As empresas estão prontas para lidar com esse conceito? Quais os avanços já obtidos e no que ainda falta avançar?
Ninguém está pronto e estamos nos preparando com aquela impressão de trocar o pneu da bicicleta com ela em movimento. Há muitos avanços do ponto de vista conceitual que facilitam o alinhamento para atuarmos conjuntamente. O Instituto Ethos, por exemplo, é um espaço onde as empresas encontram uma reflexão consistente e propostas exeqüíveis para reorientar as atividades na perspectiva do desenvolvimento sustentável. A consciência mudou mais rápido que nossa capacidade de encontrar soluções concretas para os desafios. O discurso parece estar distante da prática, mas acredito que precisamos valorizar essa fase porque várias lideranças empresariais no Brasil e no mundo já não concebem seus negócios descolados do desafio do desenvolvimento sustentável. Já conseguimos problematizar o que antes era considerado bobagem ou até ignorado.

Quais as maiores dificuldades que as empresas encontram ao desenvolverem ações sustentáveis?
Do ponto de vista cultural há uma visão sobre felicidade e sucesso que ainda é predadora da vida no planeta e da qualidade das relações. Acredito que precisamos rever valores porque uma nova consciência é exigida diante de um novo momento e seus desafios. Qualquer processo de mudança na direção da sustentabilidade precisa aliar mobilização de pessoas, ampliação da consciência, práticas concretas e exigências de conduta coerentes para produzir bons resultados. Apenas impor um novo procedimento não basta porque a mudança não se sustenta em algum lugar da cadeia de negócios. Há quem defenda que o consumidor é quem realizará as transformações de que necessitamos no mundo dos negócios, mas acredito que é o conjunto de stakeholders e sua capacidade de dialogar que fará a diferença.

Em que medida a sustentabilidade agrega valor para o negócio? Essa é uma tendência que deve se acentuar?
Sem dúvida alguma porque a história até aqui tem demonstrado a viabilidade das práticas sustentáveis do ponto de vista econômico. Buscar sustentabilidade leva as empresas a uma maior eficiência em todos os níveis. Economiza luz, água, não perde talentos por conta de alguma característica (ser mulher, negro, pessoa com deficiência ou homossexual), potencializa recursos da comunidade, tem retorno sobre sua reputação e sua marca, entre outras vantagens. Estamos falando de aspectos muito imediatos, mas devemos lembrar que a adição de valor não está em discussão, apesar de existir. Realizar as atividades com responsabilidade pelo todo e buscar contribuir para o desenvolvimento sustentável é a coisa certa a se fazer e uma exigência relacionada a nosso futuro comum. Não ser sustentável, nesta nova perspectiva, é cada vez mais uma forma de suicídio.

Como a área de RH pode trabalhar com a sustentabilidade? O que cabe ao RH fazer?
O RH tem um papel importante ao lidar com as pessoas e os processos que cuidam de suas relações internas e com outros públicos da empresa. São as pessoas que realizam as mudanças, que são parte do problema e da solução na gestão dos variados impactos a serem considerados e na construção de relações de qualidade, ou seja, sustentáveis. Na sala de aula ou na atividade de consultoria percebo que a comunidade de RH tem procurado conhecer mais a fundo esses conceitos e propostas para atender a demanda de executivos ou até para liderar processos de reflexão e construção de novas práticas. Nossos alunos na FGV trazem questões do mundo ambiental ou econômico que antes estavam distantes das discussões do RH e hoje são percebidas como fundamentais. O profissional do RH é o profissional da esperança para o desenvolvimento sustentável porque a área pode mobilizar o conjunto de pessoas, construir capital social, fazer a diferença na empresa que precisa estar sintonizada com o século XXI e não com o século XVIII. É uma responsabilidade e tanto, mas não há como esperar menos do RH quando ele pode liderar a formação de uma equipe que olha para a empresa e para o planeta ao mesmo tempo.

Um comentário:

patriciafcaram disse...

Ficou perfeito, Márcio!! Parabéns. Vou pesquisando e mandando mais, tá?! Abraços, Patricia Caram